Tuesday, December 12, 2006

O tempo

Descia a ladeira a correr. Era a sua corrida diária. Todas as manhãs, cinco minutos antes das sete, saía do seu apartamento nos arredores da cidade e corria cinco quilómetros. Cerca de meia hora depois estava de volta a casa. Tomava o seu banho matinal e arranjava-se para sair. Porém, naquela manhã fria de Dezembro algo estava diferente. As árvores estavam tristes e pareciam não reagir aos abanões do vento. Este, por sua vez, condenava todos aqueles que faziam a sua corrida matinal, penetrando-os com o seu frio anormalmente frio. Os corredores, já agasalhados por estarem no Inverno, sentiam-se como se apenas uma t-shirt tivessem vestida. Algo não estava bem. Ou seria Yellowknife que não via as coisas como elas eram?
Se calhar, as árvores estavam como todas as manhãs, o vento com a mesma força e o mesmo frio e os agasalhos eram mais que suficientes. Então, que se passava para Yellowknife se sentir diferente? Ou o mundo mudara, ou ele próprio mudara. E tudo numa noite. Lembrava-se claramente de o dia anterior ter saído às mesmíssimas 6:55 de casa e ter voltado as 7 e trinta. Tinha feito os mesmos cinco quilómetros e a paisagem era diferente. Era diferente de um dia para o outro. Como a Primavera é diferente do Outono.
Yellowknife não percebia o que se passava e fez algo que nunca fizera nos seis anos, três meses e cinco dias que corria diariamente: parou a corrida, às 7.15. Ficou estacado no meio da descida alguns segundos e depois aproximou-se da berma. Sentou-se no chão, cruzou as pernas e olhou para o horizonte. Em seis anos, três meses e cinco dias de corridas, nunca reparara como era bela a vista. Desde os doze anos de idade que corria por ali e não se apercebera da pureza do cenário. Quando olhou para os montes lá longe, recortados por entre as nuvens, começou a ter um vislumbre do que se passava consigo naquele dia.
Uma aura negra pairava sobre si. As causas eram ainda desconhecidas, mas não estava muito preocupado em descobri-las. O que lhe importava era que, quando olhou no horizonte, viu o sol. Viu a luz ao fundo do túnel negro. O vento deixou de soprar, o frio transformou-se numa temperatura amena e as árvores ganharam a expressão de todos os dias. Ou seja, o sol estava a iluminar a natureza. Mas então, não iluminaria o sol a mesma natureza, fosse visto mais acima ou mais abaixo? Desde que saíra de casa que via o sol…
A explicação para este fenómeno não estava não “onde”, nem no “quando”, mas antes no “como”. A chave para o problema era a forma como se via o sol. Yellowknife dormira mal, como não dormia há muito, muito tempo. E mal acordara, os pesadelos que o atormentavam passaram para a sua manhã. O tempo atmosférico mudara de facto, mas Yellowknife sentiu essa mudança com muito mais intensidade, porque estava mais vulnerável. Quando se sentou na berma da ladeira, houve um momento de calma, de inspiração, e recuperou fôlego.
Estava descoberta a solução, faltava determinar a causa. Pensou um pouco… Que sonhara? Só se recordava de pequenos momentos e imagens vagas. Mas havia uma constante: Tucson, a sua namorada. Pensou melhor, nos últimos dias, semanas, meses e anos e descobriu a causa: Tucson. Não ela em si própria, mas o relacionamento que tinham.
Olhou novamente para o horizonte. Levou a mão ao bolso e tirou o telemóvel. Procurou, com os dedos a tremer, uma fotografia de Tuc. Quando encontrou a sua preferida, ergueu o aparelho bem alto e olhou-a nos olhos. Mas não como sempre olhara. Deixou de a observar para passar a vê-la. O sol do seu coração brilhou, mais ainda que o do horizonte, que nascia. A penumbra em que se encontrava dissipou-se. Ao fim de tanto tempo, percebera que o verdadeiro significado das coisas não está nos critérios numéricos (onde, quando, porquê, etc.), mas simplesmente no “como”. Não interessa quantas vezes olha a namorada, se não a vir realmente.
Levantou-se e voltou à corrida. Olhou para o relógio. 7.15. Esboçou um sorriso: parecia que o tempo parara…
João M. Vargas, 11 de Dezembro de 2006